Roque Versolato

Fortalecer a indústria nacional de telecom por meio das oportunidades a serem geradas pelo Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). É o objetivo do Grupo de Empresas Nacionais de Tecnologia (GENTE), que acaba de nascer da união de Parks, Digitel, Datacom, Gigacom, CPQD, ASGA, WXBR, Trópico, Icatel e Padtec.

A meta do consórcio, cujas integrantes somaram faturamento em torno de R$ 800 milhões em 2009, reunindo aproximadamente 3,8 mil funcionários, é combater concorrentes como Huawei e ZTE, cuja agressividade de preços - favorecida pelo câmbio e pelo que críticos dizem ser incentivos desleais do governo chinês - pressiona competidores do setor de TIC de todo o mundo.

Nós x China
“Trata-se da união de empresas brasileiras que investem, ao ano, mais de R$ 150 milhões em P&D - em média 20% de seus faturamentos”, define o coordenador do GENTE, Roque Versolato. “A presidência da Telebrás e outros nomes ligados ao PNBL falam em fortalecer a indústria nacional, mas ainda não se definiu como se fará isso. Se a opção for por licitação pública, por exemplo, como fazer? Se houver a concorrência chinesa, é muito difícil bater a agressividade de preço. Em casos assim, não se concorre com uma ou outra empresa, mas com a China”, complementa o presidente da Datacom, Antônio Porto.

A ideia do GENTE é que as dez integrantes forneçam hardware e software para o Plano Nacional, atuando na implantação e operação das redes. Conforme Porto, o consórcio tem capacidade para atender à totalidade das demandas – em alguns casos, dependendo de um máximo de 5% de importação de equipamentos.

Entretanto, além do “fantasma chinês”, outra questão em aberto é o fator eleição.

“Este ano é eleitoral. Quem garante que o próximo governo manterá o PNBL? E, se mantiver, que o fará com a Telebrás, e não as operadoras, que poderão comprar de quem quiserem”, questiona Porto.

Pelo sim, pelo não, o consórcio se prepara para negócios fortes. Conforme o presidente da Datacom, a meta é buscar fortalecimento por meio do diálogo conjunto com o governo. Já Versolato lembra outra possibilidade aberta pelo uso da tecnologia nacional: a geração de empregos de alto valor e a retenção de talentos no país.

“Isso irá permitir a colaboração mútua entre as empresas, universidades e centros de pesquisa para obter ganhos de produtividade dentro do conceito de Arranjo Produtivo Local (APL)”, afirma o coordenador do GENTE, que também representa a Associação Brasileira das Empresas de Desenvolvimento Tecnológico de Telecomunicações (ABTec) e o Comitê Gestor do Programa de Inclusão Digital (CGPID).

A rede do PNBL atenderá, além da população, órgãos do governo federal como Serpro, Caixa Federal, INSS e outros. Com isso, circularão pela rede informações sigilosas dos cidadãos, que hoje se encontram nos bancos de dados destes órgãos.

Para Versolato, a tecnologia oferecida pelas empresas do Gente garante a segurança deste conteúdo.

“A tecnologia será robusta, aberta e com domínio nacional, de forma a inibir ataques, quedas e vulnerabilidades. Somente tecnologias desenvolvidas localmente podem garantir esta segurança”, assegura o dirigente.

É daqui!
A garantia de apoio à indústria nacional no PNBL vem sendo defendida pelos responsáveis pela execução do programa em Brasília.

O presidente da Telebrás, Rogério Santanna, defendeu, durante visita a Porto Alegre em junho deste ano, que nas compras governamentais do plano seja resguardado o direito de preferência a equipamentos e soluções com tecnologia nacional.

Segundo Santanna, as empresas brasileiras terão a oportunidade de cobrir ofertas vencedoras, caso suas propostas sejam até 10% mais caras do que as inicialmente classificadas.

Outra defensora da telecom nacional é a ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, que, quando apresentou o PNBL, deixou claro ser o fortalecimento do setor um dos objetivos maiores da iniciativa.

Para Versolato, este discurso tem de ser posto em prática, sob pena de invalidar a própria existência do Plano.

“De que adianta termos um ótimo projeto de rede banda larga para o país, trafegando muitas vezes informações sigilosas nas conexões de órgãos do próprio governo, e não ser desenvolvido por empresas brasileiras”, questiona o coordenador do GENTE.

Força gaúcha
Se o GENTE alcançar os objetivos a que se propõe, o Rio Grande do Sul irá abocanhar uma fatia significativa, já que três integrantes da iniciativa são daqui: além da Datacom, também Parks e Digitel.

A primeira, que tem sede em Porto Alegre, laboratório em Curitiba e escritórios em São Paulo e no Rio de Janeiro, emprega mais de 280 profissionais e prevê um faturamento de R$ 130 milhões para este ano.

Já a Parks faturou R$ 40 milhões em 2008 e figura entre as 200 maiores empresas de TI do país, de acordo com sua receita líquida, segundo o Anuário Informática Hoje – Edição 2009.

A Digitel, por sua vez, é fabricante de sistemas de gerenciamento de redes e serviços de instalação, manutenção e treinamento, mantém fábrica na capital gaúcha, produzindo até 10 mil itens/mês, atualmente.