No início desta semana, o jogo Grand Theft Auto IV (GTA IV) entrou para o Guinness como o produto de entretenimento mais lucrativo da história. Em 24 horas, vendeu 3,6 milhões de cópias, desbancando os recordistas Homem-Aranha 3 e Harry Potter.

O faturamento do GTA ao longo do primeiro dia de vendas foi de cerca de US$ 310 milhões. O aracnídeo arrasa-quarteirão ganhou US$ 220 milhões e o bruxo inglês, US$ 60 milhões. Ao final de sete dias nas lojas, o GTA ultrapassa os US$ 500 milhões.

Mais do que um game, o produto é uma compilação de personagens complexos, imagens bem construídas e trilha sonora caça-níquel. Um crítico do jornal The New York Times comparou a trama e os diálogos do jogo aos livros de Elmore Leonard, mestre de romances policiais.

GTA é o resultado de um trabalho de três anos, uma equipe de mais de mil pessoas e um orçamento de US$ 100 milhões, o que faz do produtor e criador do jogo, o britânico Sam Hauser, de 36 anos, o case de maior sucesso da indústria de games.

Um fenômeno como este não acontece por acaso. O mercado de games passa por seu melhor momento e precisa desesperadamente de mais mão de obra qualificada. A questão, portanto, é como ingressar nesta área. Antevendo um futuro próximo, as faculdades começam a apostar em graduações específicas para os jogos digitais.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, Unisinos e Feevale contam com graduações na área. Desde 2004, a primeira registra mais de 200 alunos, enquanto a segunda, que deu início aos trabalhos recentemente, conta uma turma de 22 alunos que se formarão em 2011.

Ênfases

O Curso Superior de Tecnologia em Jogos Digitais, da Feevale, aposta em fórmula semelhante ao GTA: desenvolver tramas dignas de livro e arte à altura.

"O gamer não procura por códigos computacionais interessantes, mas histórias envolventes e mundos sedutores. Hoje em dia 80% da mão de obra que desenvolve jogos é da área artística enquanto o número de informatas representa 10% da mão de obra. Isso significa que o desenvolvimento de jogos tem mais em comum com o processo de produção cinematográfica, televisional e de histórias em quadrinhos do que com os processos originários da informática" avalia Marsal Alves Branco, coordenador do curso.

Já a Unisinos anda exatamente na mão oposta. Segundo João Bittencourt, a graduação é a primeira do país a enfatizar os aspectos computacionais na criação de um jogo digital. "Uma obra de audiovisual que enfoca somente arte (gráficos e sons) e não enfatiza a tecnologia será um ótimo filme, ou animação", diz o coordenador.

"Não quer dizer que ignoramos a computação", explica Marsal, "mas buscamos formar um tecno-artista que tenha condições de trabalhar em equipes multidisciplinares, que se sinta a vontade fazendo animação, roteiro e modelagem dentro de uma equipe de game ou em um projeto cinematográfico da Pixar. E que saiba trabalhar com desenhistas, programadores, diretores, engenheiros e jornalistas", completa.

Pré-requisitos
A graduação dura três anos e meio e o ingresso é feito por meio de vestibular. Não há pré-requisitos técnicos. "Nossos alunos entram sem ter conhecimentos sólidos de programação. Entretanto é importante saber que vai precisar de muita lógica e matemática. A lógica para programar e a matemática, principalmente geometria, que servirá de base para Computação Gráfica", explica Bittencourt.

E, para contrariar o senso comum, o coordenador de jogos da Unisinos afirma que trabalhar na indústria de games não é apenas sofá e joystick. "Ainda existe um mito que o curso de jogos digitais é um curso fácil. A sociedade pensa: "ah, é barbada fazer joguinho", ou que o sujeito vai ganhar um diploma jogando. O curso é bastante complexo e exige muita dedicação do aprendiz. Transformar o lazer em profissão vai significar jogar bem menos e estudar muito para projetar e desenvolver tecnologias para jogos digitais", completa.

Mercado

Não menos complexo, o curso da Feevale exige que os alunos desenvolvam um jogo a cada semestre, desde o início da graduação. Ao finalizar o curso e receber o diploma de Tecnólogo em Jogos Digitais, o profissional poderá atuar em desenvolvedoras, produtoras de vídeo, editoras de quadrinhos, agências de publicidade, escritórios de Web, design, entre outros.

"Quem trabalha com games tem a possibilidade de transformar o mundo em seu ambiente de trabalho. Para um bom animador, modelador, roteirista, desenhista ou designer qualquer país se torna uma moradia em potencial. Desenvolvedoras ao redor do mundo estão constantemente procurando alguém com um bom portfólio e que saiba se comunicar em inglês, espanhol ou japonês", aconselha Marsal.