Marcelo Morem. Foto: Divulgação.

Por Marcelo Morem*
Se você vem acompanhando meus artigos recentes, lhe aviso com antecedência: este aqui não é sobre vendas complexas. O tema está relacionado a mídias sociais e comportamento humano. Foi uma espécie de "sugestão de pauta" de um amigo jornalista que conhece meu trabalho de "outros carnavais". Para quem não sabe, eu trabalhei muitos anos em uma agência de comunicação. E foi lá que eu presenciei a explosão da mídia social como negócio, mais precisamente no final da década passada. Acho que toda semana surgia uma nova mídia. Testamos grande parte delas. A maioria ficou pelo caminho.

Hoje temos players estabelecidos e maduros, como Facebook ou YouTube. Volta e meia alguém tenta uma coisa nova, que raramente decola. Eis que surgiu o Sarahah. Alguns amigos e conhecidos começaram a usar e divulgar (via Facebook). Então eu fiz um post a respeito. E o meu amigo jornalista chamou no inbox, sugerindo que eu ampliasse o raciocínio em um artigo. Cá estamos.

O conceito por trás do Sarahah tem origem numa coisa chamada "pesquisa de feedback". Para quem trabalha com marketing ou gestão de pessoas, para citar algumas áreas, é uma ferramenta muito difundida há anos, potencializada ao extremo com os softwares de pesquisa online. Na própria agência onde eu trabalhei, implantamos um programa de feedback junto aos clientes, muitos anos antes de existir o Google Forms  Eram pesquisas anônimas para mensurar a qualidade percebida pelos clientes em relação à empresa. O formulário tinha perguntas fechadas, mas também um campo aberto, no qual o cliente podia dizer o que quisesse para a empresa. Sem ser identificado.

A idéia de anonimato para se falar o que pensa sobre alguém pode não ser o que há de mais nobre no caráter do ser humano. Mas não poderia ser mais contemporânea. Vivemos uma época de polarização extrema de opiniões, de amor e ódio gratuitos e intermitentes. De aparências e de se esconder atrás de um teclado, para opinar sobre qualquer coisa. Feedback olho no olho, ou ao menos sabendo de onde vem, é coisa do passado. Basta observar a quantidade de perfis falsos nas redes sociais julgando atos de quem quer que seja. Ou mesmo que identificados os usuários, veja a quantidade de opiniões odiosas sem o menor compromisso com a apuração de fatos. Você ainda não é legalmente cobrado pelo que diz nas redes sociais, muito menos moralmente (a menos que seja politicamente incorreto).

O Sarahah, me parece, embarca nesse contexto sociocultural que vivemos (embora a empresa não diga isso). Para quem ainda não viu, o conceito da plataforma é muito simples. Você cria um perfil público em seu nome. Este perfil tem um formulário para que as pessoas escrevam o que pensam sobre você. Quando alguém envia uma mensagem, só você recebe e o remetente não é identificado. Você também não pode responder para ele. Então esqueça a possibilidade de uma treta anônima. Pelo menos por enquanto. O fato é que, o Sarahah está disponibilizando ao usuário comum uma ferramenta e conceito antes só utilizados por profissionais e empresas. Parece, interessante, não?

Na prática, o que teu tenho lido (no Facebook) é que as pessoas criam os perfis, usam por alguns dias e acabam encerrando as suas contas. Talvez por que o anonimato incentive os amigos, conhecidos e contatos a dizerem coisas que não diriam pessoalmente para você. E nem tudo o que eles pensam sobre você é positivo, aceite isso. Um ditado popular diz "não pergunte o que você não quer saber". Praticar e receber feedback são atividades delicadas, mesmo para profissionais com anos de experiência. Imagine para quem não está acostumado. Partindo deste entendimento, o Sarahah poder ser a sua Caixa de Pandora ao contrário. De repente você abre, parece que só vão entrar coisas legais, mas também virão críticas construtivas, trollagens e, obviamente, mensagens negativas. Dependendo do seu momento pessoal, personalidade ou estado emocional, o Sarahah pode ser uma mola ou uma âncora.

Mas, apesar de toda esta ponderação, não tenho uma percepção definitiva a respeito. Convenhamos, o produto ainda é um MVP, está passando pela prova de conceito. Existe um botão de "like" para você favoritar as mensagens que lhe agradam. Isso, mais a análise qualitativa do conteúdo, deve dar algum indicativo para onde os criadores podem evoluir a plataforma. Mas é a vida curta dos perfis, uma coisa que eles não previram, que me chamou atenção. As pessoas abrem e encerram as contas em um curto intervalo de tempo. Mas o Sarahah só oferece a possibilidade de encerrar a conta. Um simples botão de bloqueio seria mais efetivo. Para o usuário voltar e reativar o formulário de feedback quando quisesse. O caráter temporário pode ser exatamente o caminho para a aumentar o ciclo de vida do usuário. Afinal, nem todo mundo está o tempo todo aberto a receber feedback em massa. Mas receber algum feedback de tempos em tempos sempre é positivo, pessoalmente e profissionalmente.

*Marcelo Morem é consultor, instrutor e mentor em Gestão de Vendas Complexas.