Steve Brazier, presidente da Canalys. Foto: Divulgação.

Os conceitos de disrupção e transformação digital dominaram os eventos e palestras de tecnologia em 2017, dando um status de mantra para frases como “o Uber é a maior empresa de transporte do mundo sem ter nenhum carro” e “o Airbnb é a maior do setor de hospedagem mas não tem nenhum quarto”.

No entanto, Steve Brazier, presidente da Canalys, uma consultoria britânica especializada em analisar o mercado de canais, quer convencer a indústria de tecnologia a esquecer essas referências.

“Nós pensamos que 2017 se tornou o ano em que grandes empresas disruptivas tiveram um rompimento”, declarou Brazier na abertura do Canalys Channels Forum, em Buenos Aires.

Para ele, essas empresas têm cometido diversos erros como evitar impostos, criar monopólios e atuar com comportamento ético problemático e não devem ser seguidas como  exemplo.

No quesito ética, o Uber tem os maiores problemas. Além de diversos escândalos relacionados a situações de assédio a funcionários diretos, o aplicativo sofre com protestos dos próprios motoristas sobre o tratamento recebido. Steve lembrou de movimentos realizados no Chile, na Argentina e no México.

“Nós temos um conselho para vocês. Se estão dizendo aos seus clientes que eles devem ser disruptivos como Uber e Airbnb, achamos que devem parar. O objetivo não pode ser seguir para um caminho em que funcionários se sentem maltratados e há problemas éticos. Vocês tem que incentivar os clientes a trilharem uma jornada própria”, finalizou Brazier.

A nova polêmica do Uber neste semana, que admitiu ter US$ 100 mil a hackers para ocultar uma violação de dados que afetou 57 milhões de contas, reforça a posição da Canalys.

Os dados violados em outubro de 2016 foram nomes, e-mails e números de telefone de milhões de usuários, além de cerca de 600 mil números de carteiras de motorista dos profissionais cadastrados no sistema.

A revelação do pagamento aos hackers é mais um desafio nas mãos de Dara Khosrowshahi, que assumiu como CEO do Uber há dois meses e tenta levar estabilidade à companhia após um ano de controvérsias e polêmicas que ocorreram durante a liderança de Travis Kalanick, co-fundador do Uber. 

Como CEO da Uber, Khosrowshahi herdou várias investigações federais, uma batalha legal com a Alphabet, e a polêmica do assédio na empresa, iniciada após reivindicações de uma ex-engenheira que relata que a administração do Uber ignorou suas queixas e de outras mulheres em relação a sexismo e assédio.

*Júlia Merker cobriu o Canalys Channels Forum, em Buenos Aires, a convite da Canalys.