Por Felipe Ribeiro
Ok. Estamos em tempos de crise. Ok. Tem muita gente procurando trabalho. Ok. Não está fácil para ninguém. Ok. Não consigo encontrar outro trabalho. Ok. Não consigo encontrar um trabalho, e preferia ter um chefe "mesmo que babaca" do que não ter chefe. Ok. 

Ok. Ok. Ok. Ok. Ok.

Compreendo tudo isso. E digo mais: acho tudo isso mimimi.

Não estou dizendo que você deva pedir demissão ou deixar de pegar um trabalho por conta de um chefe babaca.

A minha pergunta é: se você atura humilhação, se você aceita ser humilhado, se você aceita as atitudes que este chefe BABACA tem com você. Veja bem que nesta frase o foco é total em você. E não no chefe. É muito mais uma questão da sua postura diante o que acontece à sua volta do que querer mudar as outras pessoas.

 

Resumindo: você deixa que te façam de capacho?

 

1) Porquê não aceitar babaquices

Hoje tenho o privilégio de não ter um chefe babaca.  Mas já tive. Não vou dizer onde nem quando. Posso dizer que não estou me referindo à época que trabalhei em um navio de cruzeiro, embora lá tivessem MUITOS babacas.

Sei que o mercado de trabalho está cheio deles. Parece que a pessoa muda quando sobe de cargo. "O poder sobe à cabeça".

E por aí fica fácil de entender o porquê de não aceitar as babaquices. Não é por conta de um cargo hierárquico que a pessoa tem o direito de tratar mal as pessoas.

E tem mais: não é por conta que você é subordinado de alguém babaca que você precisa aturar as babaquices desta pessoa. Hoje (ver vídeo aqui) a famigerada geração Y ou os Millenials estão buscando propósito, alinhamento de valores, ressonância de atitudes, oportunidades de aprender fazendo e estruturas mais horizontais. Uma empresa que atura um chefe babaca está dando um tiro no próprio pé. Os talentos VÃO fugir.

O antigo método de gestão pelo MEDO funciona cada vez menos e a tendência (em empresas que levem gestão a sério) é que este método de gestão desapareça.

 

2) Como não aceitar babaquices

Lendo aqui parece que eu estou dizendo para você RESPONDER para seu chefe, ou até mesmo dar na mesma moeda aquilo que ele faz com você.

Na verdade é justamente o oposto. A pior coisa que você pode fazer é enfrentar. Não adianta e o quê provavelmente acontecerá é que você vai ser demitido se enfrentá-lo(a).

Melhor mesmo é você se posicionar:

A) Entender que aquelas atitudes do chefe é um problema dele com ele mesmo, e não alguma coisa com você. Imagine só ele agindo daquela maneira com o cônjuge dele ou com os filhos. Aquela pessoa "BABACA" não é ele (ou ela). Aquela pessoa é uma máscara que a pessoa usa no trabalho. Então não leve para o lado pessoal. Aliás quero deixar aqui bem claro que babaquice não tem exclusividade de gênero: pode ser tanto homem como mulher.

B) Com este entendimento fica mais fácil deixar com que as coisas das atividades profissionais não peguem nas coisas pessoais.  Veja bem que não estou dividindo uma pessoa em duas. Mas sim características diferentes dentro de uma mesma pessoa.

C) As posturas que você terá (internamente) quando ver estas atitudes babacas serão simples: não é comigo. Eu não sou a causa desta atitude. Vendo desta maneira já ficará mais fácil ter uma postura externa mais positiva.

D) Com certo tempo este seu (sua) chefe verá que a gestão pelo medo não funciona com você. E tentará um nova abordagem. Se você e mais colegas do trabalho fizerem o mesmo o resultado será mais rápido com certeza. Mas não conte com eles. Existem mais interesses escusos entre o céu e a terra do que possamos imaginar.

Mas Felipe, tudo bonito na teoria, mas na minha empresa o "pau tora" todo dia e não tem como ter uma postura mais "paciente". É preciso agir mais "bravamente". Pois é....

 

3) Quando o enfrentamento é inevitável

Não adianta ser hipócrita e achar que apenas mudar nossa postura vai fazer com que o mundo inteiro mude. O quê vai mudar é o mundo à nossa volta, ou melhor: nossa interação com ele. Mas mesmo assim existem sempre exceções. E terão vezes sim que o enfrentamento será inevitável. Sim.

Mas aí é que entra a postura novamente. Estamos aqui tratando de um(a) chefe babaca. Então muito provavelmente ele tem mais força política, hierárquica e "social" dentro da empresa. Para você poder "enfrentar" seu chefe a melhor coisa é se preparar para isso.

A) Capital social e político conta. E muito. No mundo inteiro existe uma coisa chamada "empatia pelo mais fraco" (quando ele é muito mais fraco). É só ver agora nas Olimpíadas. Pense nos refugiados. Nitidamente eles são mais fracos tecnicamente (não por capacidade, mas sim por condições de treino, sócio-cultural e por aí vai). Mas, é natural que as pessoas torçam para eles em vez de torcer pelo outro competidor (que seja mais forte).

O mesmo acontece com um chefe BABACA e você. As pessoas vêem você sendo humilhado e naturalmente criam empatia por você. Você não precisa falar mal do seu CHEFE pra ninguém. As pessoas estão vendo o que está acontecendo. As próprias atitudes do seu chefe já falam mal dele mesmo para as outras pessoas. Note que em nenhum momento eu disse vitimização.

Então, utilize-se dessa posição de "Davi" perante o "Golias" e amplie seu capital social e político na empresa. As pessoas vão "comprar" seu lado.

B) Caso necessário contate o RH. Se não bastar contate o chefe do seu chefe.

NOTAS IMPORTANTES:

Não vá reclamar do seu chefe. Apenas se posicione: relate como você se sente / fica quando as BABAQUICES acontecem.

Não solicite providências. Apenas peça conselhos em como agir nas situações que passa e como lidar com aquelas atitudes. Não em um tom de reclamação. Mas em um tom de busca por melhorias. Busca por entendimento e conciliação. Para que estas solicitações causem o efeito esperado é necessário que estas "buscas" sejam genuínas.

Não entre nos detalhes sórdidos. As pessoas (mesmo que não digam) já sabem o que você vem passando. A rádio-peão funciona muito bem nesse sentido. Portanto, você não está indo delatar ninguém. Está indo buscar orientação e conselho em como agir em tais situações.

Depois de feitos esses passos, é só se preparar:

O enfrentamento muito provavelmente não acontecerá.

Sim. O movimento do capital social-político e as conversas com o RH (ou o chefe do chefe) geram algum tipo de ação naquele bendito chefe. A pressão sócio-política é bem mais forte que um grito, um tapa na mesa ou uma gritaria na baia. 

Sim. O pedido de aconselhamento funciona MUITO como um posicionamento maduro e explícito de insatisfação com o ambiente de trabalho. Se você estiver performando bem (e isto é importante nesta conversa toda) a empresa fará uma força para que você se torne pelo menos satisfeito no ambiente de trabalho, e você não precisa pedir isso afinal é a função do RH ou do chefe do seu chefe que o ambiente seja no mínimo aceitável para os funcionários.

 

4) Eu já passei por isso #também

Sei que não é exclusividade minha ter tido chefe BABACA, mas também já passei por isso. E tomei estas atitudes quando passei por isso. E deu certo. Sei também que estas não são as únicas maneiras de lidar com este problema, mas sim que são algumas das maneiras de lidar.

 

Se você já passou por alguma coisa semelhante, compartilhe comigo quais foram as atitudes que você tomou que deram certo. Também quero saber e é possível que outras pessoas também queiram saber.

* Felipe Ribeiro é coordenador de Real Ação com Investidores do Grupo Gaia. Este artigo foi publicado originalmente no Pulse.