Roberto Setúbal no Ciab. Foto: divulgação.

Roberto Setúbal, presidente executivo da holding Itaú Unibanco, acredita que os bancos brasileiros podem encarar com relativa tranquilidade o fenômeno das chamadas fintechs, companhias novas que, na opinião de muitos, estão levando a estratégia de “disrupção” para o mundo dos bancos.

Em palestra no Ciab Febraban nesta terça-feira, 21, Setúbal reconheceu no entanto que os bancos terão que reduzir suas margens de lucro e buscar maior eficiência operacional se quiserem se manter como o eixo central do universo financeiro.

“Se as margens ficarem menores, os custos precisam ficar menores. A equação vai seguir fechando se os bancos souberem trabalhar direito”, resumiu Setúbal, à frente do Itaú desde 1994, período no qual o banco entrou entre os 10 maiores do mundo em valor de mercado.

O executivo mostrou alguns dados do Itaú para mostrar que o banco vem fazendo sua parte quando o assunto é “trabalhar direito”.

O mais importante é a migração em massa dos clientes para os canais digitais de atendimento. Em 2008, 74% dos atendimentos ainda eram feitos por ATMs, telefone ou na boca do caixa. A cifra virou em 2013 e hoje já é o reverso: 71% dos clientes usam o Internet banking e, cada vez mais, os apps.

Em 2013, quando a tendência de migração para os celulares começou, o Itaú lançou oito versões de apps diferentes. No ano passado, foram 56. Uma nova versão é publicada a cada 15 dias. Com isso, o atendimento mobile triplicou desde 2013, chegando a 20% no ano passado.

Mais atendimento online é igual a menos agências e menos custos. Setúbal relembrou que desde a introdução dos primeiros caixas eletrônicos, em 1983, o número médio de clientes por agência passou de 2 mil para até 20 mil hoje e deve seguir crescendo.

A aposta em modelos de negócios cada vez mais digitais é uma maneira do Itaú de se igualar a concorrentes que já nascem com essa abordagem, mas Setúbal apontou maneiras mais sutis com as quais os bancos podem ganhar as startups no seu próprio jogo.

“Uma vantagem que nós temos é o maior volume de dados sobre clientes e as possibilidade de projetos de Big Data associados”, resumiu o banqueiro, que destacou também que o banco estava dando a largada a seus primeiros projetos de cloud computing neste ano, com planos de incrementar a aposta em 2017.

O executivo não deu detalhes de qual será a abordagem cloud do banco, mas muito provavelmente ela usará a infra do data center inaugurado em Mogi Mirim no começo do ano passado, a um custo de R$ 3,3 bilhões.

Setúbal também mencionou a possibilidade de trabalhar com a APIs, permitindo que desenvolvedores terceiros criassem aplicações para os clientes Itaú, sempre que se encontrasse a maneira adequada de fazer isso em termos de infra e segurança. 

O marco regulatório brasileiro, que impõe restrições à atividade de companhias que não sigam o compliance bancário em atividades de intermediação financeira, também impede uma explosão de fintechs como a vista nos Estados Unidos.

Mesmo assim, nos últimos tempos surgiram no mercado companhias como Banco Original, uma operação bancária 100% digital com a meta de ter 2 milhões de clientes em 10 anos bancada com R$ 300 milhões da JBS.

Outro exemplo marcante é o Nubank, serviço de cartão de crédito que funciona apenas com o app, que já levantou R$ 340 milhões de investidores. Ambas empresas estão dentro da lei brasileira e competirão por clientes com o Itaú.

Talvez por isso, o banco tem investido também em outras iniciativas, como o Cubo, uma incubadora para startups em São Paulo que hoje abriga 53 companhias (um número não revelado delas já trabalha para o banco) e uma presença forte em redes sociais (com 8,3 milhões de seguidores no Facebook, é o banco mais seguido no mundo).

A dedicação do Itaú em incutir um espirito mais digital na instituição tem até medidas que comentadas fora do contexto podem parecer meio cosméticas, como manter um perfil no Instagram (118 mil seguidores), conduzir entrevistas de emprego pela rede social Snapchat, a qual aparentemente ninguém com mais de 25 anos sabe para o que serve ou levar executivos para conhecer o Vale do Silício.

Mas no conjunto da obra, está claro que está em curso uma transformação profunda de uma das instituições mais tradicionais e bem sucedidas do capitalismo brasileiro.

O embrião do Itaú, o Banco Central de Crédito, foi fundado em 1945 por um tio de Setúbal, em cuja árvore genealógica se dependuram barões, viscondes e marqueses do Brasil Império. 

“Tecnicamente, o banco tem competência. O desafio é cultural”, resume Setúbal.

* Maurício Renner cobre o Ciab Febraban em São Paulo a convite da SAP.