Vera Guasso, do Sindppd-RS, acredita que Sindtec é "manobra dos empresários". Foto: divulgação.

Uma batalha sindical está em curso no Rio Grande do Sul, opondo de um lado o Sindppd-RS e do outro o Sindtec-RS, um sindicato ainda não formado que pretende representar os profissionais ligados a provedores de acesso à Internet.

A formação do Sindtec é liderada por Paulo Roberto Cornutti, um empregado da Bitcom de Caxias cujo nome aparece assinando o edital de convocação da reunião de formação do sindicato, marcada inicialmente para o domingo, 10.

O Sindppd-RS obteve uma liminar na Justiça do Trabalho cancelando a reunião, alegando entre outras coisas que a escolha da data – o domingo antes do Carnaval - visava limitar a participação e garantir a aprovação da formação do novo sindicato.

Uma nova reunião foi marcada pelo Sindtec para a quinta-feira, 28, às 15h30, em um salão de aluguel localizado na Avenida Arabutan, 599, em Porto Alegre. O Sindppd-RS diz que estuda novas medidas, mas a liminar foi concedida pela justiça com base no argumento da data e não em outras considerações, o que parece limitar as opções do ponto de vista jurídico.

“Queremos um sindicato específico para os funcionários de provedores de Internet, uma área que hoje tem 10 pais, nenhum dos quais cuida da criança”, afirma Cortnutti, alegando que a marcação da data foi um “equívoco” que não desmerece a premissa básica por trás da formação do novo sindicato.

[Marcar horários “difíceis” para reuniões visando obter resultados favoráveis é uma prática comum no meio sindical e um pecado do qual o próprio Sindppd-RS não está isento. Fontes do meio sindical relataram ao Baguete que o sindicato já manteve a prática de marcar reuniões as 17h30 ao lado do Serpro, estatal no qual a presidente Vera Guasso tinha sua base de apoio].

De acordo com Cornutti, por não terem um sindicato específico os funcionários dos provedores de Internet acabam sendo representados por sindicatos que não têm o preparo necessário, como organizações ligadas ao comércio em muitas cidades do interior, ou o Sindppd-RS, um sindicato da área de informática cuja maior atuação se dá em estatais de processamento de dados.

Para Vera Guasso, presidente do Sindppd-RS, o projeto de fundação do Sindtec-RS é uma “manobra do empresariado” visando enfraquecer o sindicato devido aos bons resultados das últimas campanhas salariais, nas quais o Sindppd-RS obteve um aumento real de 1% nos salários de empresas privadas pela primeira vez em anos e agora se prepara para demandar a redução da semana de trabalho para 40 horas.

A sindicalista aponta a “estranha coincidência” representada pelo fato do Sindtec-RS surgir ao mesmo tempo em que é fundado um novo sindicato patronal, o Seinergs, visando representar os provedores de Internet.

A nova entidade é liderada por Fabiano Vergani, diretor da Visão e da Bitcom, na qual trabalha Cornutti.

Vergani afirma que a movimentação para formar o Sindtec-RS é “independente” da constituição do Seinergs e visa atender a demanda dos próprios funcionários dos provedores de Internet por uma representação específica.

O empresário nega que a intenção do Seinergs seja ampliar a representação para além desse meio.

De fato, a lista de empresas com representantes no Seinergs inclui apenas companhias do ramo: Getecnet, Omega Tecnologia, Raufer Networking, Viavale, RedeSul, TCA, Simtelecom, Computech, Mauro Meirelles, Vetorial, Compuline e Commcorp.

Cornutti destaca que o edital de fundação do Sindtec-RS enfatiza uma lista de possíveis setores que podem aderir ao sindicato além do provedores de Internet – incluindo atividades relacionadas como serviços de VoIP e outras nem tanto como treinamento e capacitação – exclui explicitamente “empresas de processamento de dados”, que seriam atribuição do Sindppd-RS e do Seprorgs.

“Estranho a preocupação do Sindppd-RS com o nosso segmento nesse momento, depois de anos sem fazer nada em relação aos provedores”, ironiza Corntutti, que está há três anos na Bitcom mas é um profissional sênior, com 40 anos de carreira.

Questões de representatividade à parte, é fácil ver porque a fundação do Sindtel-RS causa uma reação tão forte por parte do Sindppd-RS, que em nota publicada seu site fala em “barrar o peleguismo e os traidores da categoria”.

A reação dos sindicalistas gaúchos é parte de uma disputa nacional com o crescimento de uma linha de sindicatos ideologicamente mais centristas e inclinados a uma relação menos conflituosa com os empresários.

Caso venha a ser fundado, o Sindtel-RS será afiliado à Federação Interestadual de Trabalhadores em Tecnologia da Informação (FEITTINF), comandada pelo presidente do paulista Sindpd, Antônio Neto. Por sua vez, a FEITTINF é ligada à Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), também presidida por Neto.

O onipresente paulista foi recomendado pelo ex-presidente Lula nas últimas eleições do sindicato paulista. A linha ideológica da CSB é moderada em relação ao sindicalismo tradicional, com referências a uma linha “varguista” de “defesa dos direitos dos trabalhadores”.

O Sindpd defendeu publicamente a desoneração da folha de pagamentos da área de TI e o sindicato divulgou notas dizendo que funcionários CLT eram “mais produtivos” que PJs e afirmando que o problema de falta de mão de obra era salarial. Por sua parte, em entrevista ao Baguete, Vera Guasso se posicionou a favor de uma semana de trabalho de 30 horas.

A linha ideológica de Neto e do Sindpd causa urticária no Sindppd-RS, que é filiado à Conlutas, uma organização que não tem status sindical é composta por uma série de movimentos radicais de esquerda, com proeminência ideológica do PSOL e do PSTU, partido pelo qual Vera Guasso já foi candidata à prefeitura de Porto Alegre em diferentes ocasiões.

Caso seja criado, o Sindtec-RS arrecadará contribuições sindicais que ajudarão a financiar a FEITTINF – que já tem seis sindicatos da área de TI filiados. Hoje, o Sindppd-RS representa uma base estimada em de 20 mil empregados, dos quais cerca de mil pagam mensalidades e o restante o imposto sindical obrigatório.

Procurada, a FEITTINF afirma que não conhece a movimentação em curso no Rio Grande do Sul, hipótese que é considerada “impossível” por Vera.