Mexico e Brasil ficou no 0 a 0. Foto: divulgação.

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Durante a Copa do Mundo o Baguete Diário vai republicar crônicas do site especializado em futebol Impedimento sobre os jogos da seleção brasileira. Esse é o segundo, de autoria de Maurício Brum.

A alegria, a confiança, o discurso de que a Copa será do Brasil porque não pode deixar de ser, estavam mesmo insistentes demais. Pedíamos, exigíamos e cobiçávamos uma atuação extremamente ruim. Na falta de eliminatórias assustadas e com aquela bela impressão da Copa das Confederações, a Seleção estava carente do tradicional jogo que nos deixa com grossas dúvidas. Não que o time merecesse confiança irrestrita: afinal, é uma equipe com Fred no ataque, Jô no banco e mais alguns nomes bem dignos de um pé atrás. Mas é inegável: a vitória contra a Espanha em 2013 calou fundo para nos afirmar que “sí, se puede”, mesmo com todo esse estado das coisas. A Seleção precisava jogar mal para ter alguma chance – e esperou até a Copa do Mundo para isso.

Foi o segundo 0×0 deste Mundial cheio de gols, mas colocá-lo na mesma sacola do primeiro (o hediondo Nigéria x Irã) é uma tremenda injustiça. Sem ser boa tecnicamente, a partida esteve entre as mais entretidas da Copa. Os dois times atacaram demais, criaram boas chances, e até o final a partida esteve no limiar entre escolher um e outro lado para presentear com três pontos. O México, uma verdadeira calamidade nas eliminatórias, parece ter se ajustado a tempo do torneio final, e hoje foi eficiente na sua marcação leonina sobre o Brasil. Concluiu seu segundo jogo sem sofrer gols dominando o meio de campo e anulando a ofensiva verde e amarela. Fred foi uma lástima nas poucas bolas que chegaram, mas a outra verdade desta frase é que, oras, poucas bolas realmente chegaram em condições de serem aproveitadas.

Quem pôde tentar levar algum perigo acabaram não sendo os supostos goleadores – nem Fred, nem seu substituto, Jô –, e outra vez coube a Neymar a missão de liderar não apenas o ataque, mas o país inteiro rumo à quimera improvável que hoje nem era a taça, mas um simples gol. Ochoa esteve gigantesco, não nos esqueçamos, e a defesa que fez ainda no primeiro tempo, na cabeçada de Neymar, já é a maior desta Copa. Mas as outras duas bolas marcantes que salvou foram menos golpes de agilidade e reflexo do que bom posicionamento: os chutes saíram em cima dele. No fim da partida, Marcelo – de atuação decente comparado à estreia – decidiu trocar uma bola quicando na frente do gol por um mergulho para cavar pênalti. E, se o Brasil comprou a Copa, o dinheiro não chegou para o árbitro turco desta tarde, em Fortaleza, que mandou o jogo seguir.

Do outro lado, com boas trocas de passe e contragolpes rápidos, o México assustou com uma porção de chutes que saíram por cima, e já nos acréscimos do segundo tempo paralisou alguns milhões de corações com uma bola que forçou Júlio César a espalmar para o meio da área. Apesar de interessante, um jogo sem gols sempre será um jogo vazio, e o que tornará essa partida memorável é menos o que aconteceu em campo e mais o duelo das arquibancadas. Os mexicanos são especialistas em percorrer o mundo para acompanhar sua seleção, apesar de todas as derrotas que trazem nas costas, e fizeram um extraordinário duelo vocal com os brasileiros, os quais souberam responder. Houve até os gritos de PUUUTOOO nos tiros de meta cobrados pelos dois goleiros, algo que costuma acontecer de um lado só. Mas o xingamento era secundário: a festa toda foi sensacional. Faria bem a Giovani dos Santos, Neymar e seus comparsas aplaudirem a torcida pelo espetáculo muito melhor do que o oferecido pelas duas equipes juntas.

O empate por 0×0 recoloca todas as interrogações flutuando sobre as cabeças do país, faz crescer o sentimento de que com esse time não vai dar, e joga um manto de vergonha sobre toda a estirpe de centroavantes que evoluiu nosso futebol até chegar à versão atual de camisa 9 que ali temos. Ou seja: agora sim, que o choque de realidade fez a corneta voltar forte, o Brasil está pronto para brigar pelo hexacampeonato. A corneta, como sabemos, salva, liberta e carrega os times até a redentora vitória final – e se o título não vier é porque o animado Castelão teve pudor demais e não deu à equipe a merecida vaia após o 0×0 de hoje.