RMS sempre levou tudo até às últimas consequências. É o que se espera de um gênio? Foto: https://www.flickr.com/photos/christopheducamp/

Richard Stallman, um dos ícones do mundo do software livre, caiu em desgraça nessa semana, como consequência de comentários no mínimo questionáveis sobre o caso Jeffrey Epstein, um escândalo sexual é que o tema do momento nos Estados Unidos.

Depois que emails em uma lista de discussão ligada ao MIT vieram a público, Stallman decidiu renunciar à presidência da Free Software Foundation, uma entidade mundial fundada por ele mesmo em 1985, além de deixar o cargo de cientista visitante do prestigiado Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial do MIT.

Nos e-mails, publicados em um post no Medium por um aluno do MIT e depois repercutidos pela revista americana Vice, Stallmann sai em defesa de Marvin Minsky, um pioneiro no campo de Inteligência Artificial que faz parte da lista de acusados de participação no esquema de tráfico sexual de menores orquestrado por pelo bilionário Jeffrey Epstein.

Epstein tinha relações próximas ao MIT, tendo doado dinheiro para atividades da prestigiada universidade americana, o que tem levado os alunos a organizar protestos. 

O empresário se matou recentemente na prisão em circunstâncias mal explicadas, depois de ter sido acusado de atacar sexualmente dezenas de jovens, algumas com apenas 14 anos, além de agenciar encontros do tipo para outros homens.

Nos e-mails, Stallman afirma que o “cenário mais plausível”, é que a menor que acusa Minsky tenha na ocasião consentido em ter relações sexuais, e que Minsky não teria como saber que ela estava sendo forçada por Epstein.

Ele argumenta que é “moralmente absurdo definir ‘estupro’”, tendo em conta detalhes mínimos como o local no qual o abuso teria tido lugar, ou se a vítima tinha “17 ou 18 anos”, fazendo uma menção ao fato de que a jovem que acusa Minsky teria 17 anos quando do ato, que teria acontecido nas Ilhas Virgens, onde a idade para relações sexuais consentidas é 18 anos. 

Stallman, hoje com 66 anos, lançou as bases para o que conhecemos hoje como o sistema operacional Linux, usados por Linus Torvalds na criação do kernel Linux original. O seu trabalho está por detrás de muito do que é a computação moderna. 

Na semana passada, ele deu uma palestra na Microsoft, um evento que foi considerado um marco.

Conhecido como RMS, Stallman é um dos ícones do software livre, juntamente com o próprio Linus e John “Maddog” Hall, criador de um dos primeiros grupos de usuários Linux. 

Stallman e Maddog são figuras tarimbadas no circuito de eventos ligados ao software livre, incluindo aí pelo menos uma dezena de aparições no Brasil, principalmente no Fórum de Software Livre, ponto de encontro da comunidade ligada ao tema no país, atualmente em stand-by.

As declarações sobre o escândalo Jeffrey Epstein, que podem ser consideradas insensíveis mas não justificariam por si só uma renúncia, foram só a gota d’água em anos de posicionamentos controversos que levaram entidades importantes, como a Software Freedom Conservancy, a pedir a sua saída.

Em seu blog pessoal, Stallman levava às últimas consequências o posicionamento libertário radical que é a base ideológica da sua defesa do software livre, tendo feito comentários sobre temas como necrofilia, bestialidade, posse de pornografia infantil e até incesto e pedofilia.  

Os comentários são a versão no campo da opinião da prática de levar tudo às últimas consequências por trás do comportamento algo obsessivo de Stallman em relação ao uso de tecnologia, que inclui não usar um telefone celular, evitar usar sistemas baseados em cartões para acessar edifícios para evitar registros, ou acessar a Internet somente via Tor, pelo mesmo motivo.

A preocupação desmesurada com privacidade pode ser encarada como uma prova de coerência. Também dá para fechar o olho para posts controversos em um blog pessoal, algo que a comunidade tecnológica faz em relação a Stallman já há alguns anos. 

No entanto, o RMS parece ter cruzado os limites ao decidir dar pitacos politicamente incorretos sobre um dos maiores escândalos sexuais em anos nos Estados Unidos. 

A tolerância com as excentricidades de um gênio parece estar chegando ao seu limite, mesmo em um universo em que a figura do lobo solitário (com rasgos que alguma feminista poderia definir como “masculinidade tóxica”) é tão cultuada como na informática.

O entendimento desse fato parece ter chegado tarde para Stallman, o tipo de gênio que não é capaz de medir palavras, ou considerar que talvez seja melhor não dizer algo.

Outros, como Linus Torvalds, parecem ter sentido melhor a mudança no zeitgeist.

Conhecido pelo seu comportamento explosivo, Torvalds veio a público no ano passado para admitir que é uma pessoa “realmente desagradável” e que precisava melhorar.

Em um e-mail enviado na lista de discussão dos envolvidos na manutenção e desenvolvimento do kernel do Linux, Torvalds se desculpou pelo seu passado de respostas explosivas e ataques pessoais, e disse vai procurar ajuda.

“Eu preciso mudar meu comportamento”, disse Torvalds no e-mail, agregando “gostaria de me desculpar com todas as pessoas que meu comportamento pessoal feriu e possivelmente afastou do desenvolvimento do kernel”.

Torvalds também apresentou um novo código de conduta para os participantes, visando transformar a comunidade em torno do kernel em um "ambiente mais acolhedor".