Saraiva decidiu bater na mesa e processar fornecedores. Foto: Pexels.

A Saraiva, uma das maiores redes de livrarias do país, está processando a SAP e a Infosys por um projeto de implementação de um sistema de gestão que deu errado em 2018.

De acordo com a ação, à qual o Valor Econômico teve acesso, a Saraiva busca ressarcimento dos prejuízos que teve pelos problemas causados pela implementação, a cargo da Infosys. 

Já a SAP, na versão da Saraiva, teria vendido um software “muito além de suas necessidades” e seria responsável pelo desempenho da Infosys no projeto por ter feito a indicação do parceiro. 

A ação não chega a fazer um pedido de indenização, mas abre os valores envolvidos, o que dá uma ideia do que pode vir. 

A Saraiva pagou à SAP R$ 16,23 milhões, através de leasing financeiro, pela aquisição das licenças do software. A conta com a Infosys era de R$ 50,5 milhões pelo trabalho de implementação do software, mais R$ 14,4 milhões por serviços de gestão.

A Infosys, aliás, não chegou a ser totalmente paga. A Saraiva deve R$ 33,8 milhões para a multinacional indiana, que é um dos três maiores credores individuais da empresa, só atrás do Banco do Brasil (R$ 90,7 milhões) e do BNDES (R$ 41,7 milhões).

Os problemas do projeto já tinham sido discutidos publicamente. Eles foram citados pela Saraiva quando deu entrada no processo de recuperação judicial da empresa, em 2018, e também em um laudo da prestigiada consultoria Galeazzi, em 2019.

Até agora, no entanto, eram menções discretas sobre problemas de faturamento causados pela implementação. Os trechos da ação citados pelo Valor são muito mais reveladores, uma verdadeira lavação de roupa suja.

A Saraiva afirma ter ficado “praticamente paralisada” por 60 dias por erros da Infosys, às vésperas da Black Friday, uma das maiores datas do ano no varejo.

De acordo com a livraria, o trabalho de implementação da Infosys foi um “desastre”, com atrasos sucessivos e falta de experiência da equipe que “não tinha experiência no segmento de varejo”. 

A varejista afirma não ter conseguido emitir notas fiscais, ter sofrido interrupção nas vendas, pagamentos a fornecedores e obrigações fiscais. 

Houve, ainda, afirma a empresa, falhas na precificação do e-commerce, com registros de saída de produtos com valores divergentes do que havia sido estipulado e dificuldades no transporte do centro de distribuição às lojas, que resultaram em falta de mercadorias e estoque.

A Saraiva afirma que uma consultoria auditou o processo e demonstrou “erros crassos” na implantação, que pulou etapas, não respeitou o manual da SAP e encareceu os custos. 

Procuradas pelo Valor, a Saraiva e Infosys não deram entrevista. A SAP disse que não foi notificada oficialmente, por isso não comentou. 

A multinacional alemã falou apenas genericamente sobre as suas práticas, dizendo que não recomenda empresas para implementar suas soluções e que essa escolha é de “critério exclusivo do cliente”.

Quem conhece grandes projetos de implementação de ERP sabe que não é bem assim. 

A SAP pode não fazer uma recomendação explícita (isso seria contraproducente para a própria SAP frente aos seus canais), mas ela envolve parceiros nas fases iniciais dos projetos, o que dá ao cliente uma referência de quem podem ser os implementadores mais adequados. 

Por mais que projetos de implementação de ERP possam causar problemas, é raro que os clientes falem publicamente sobre o assunto, e mais raro ainda que decidam processar grandes fornecedores de tecnologia e seus parceiros, como é o caso da SAP e Infosys.

Os motivos para isso são vários. Um deles é que um grande projeto desse tipo tem uma grande dose de responsabilidade do lado do comprador e não é tão fácil estabelecer a fronteira das responsabilidades, ou quem é culpado pelo que.

Outro é que os clientes devem temer, justificadamente, que os contratos assinados com gigantes multinacionais como SAP e Infosys são muito bem pensados pelo lado dos fornecedores para evitar justamente esse tipo de situação.

Para fechar, não é tão fácil assim arrumar um fornecedor de ERP para empresas de grande porte. O mercado é dominado pela SAP e quatro ou cinco outras empresas, todas menos relevantes no segmento. 

Talvez muitos clientes com projetos complicados analisem a situação e concluam que, frente a tudo isso, é melhor renegociar condições e terminar o projeto mesmo com problemas de percurso do que começar outro do zero.

Mas essas são as regras para clientes em situação normal, o que não é o caso da Saraiva. Em primeiro lugar, ela não tem um projeto para salvar. Segundo a ação divulgada pelo Valor, a empresa voltou para o seu sistema antigo.

Mais importante do que isso, a Saraiva está numa situação complicada financeiramente, do tipo que pede medidas fora do comum.

A dívida total da companhia chega a R$ 675 milhões, a maior parte deles concentrados em editoras de livros e fornecedores de eletrônicos dos quais a Saraiva comprou produtos e não pagou.

A empresa deve fazer o leilão de suas lojas e da operação de e-commerce nesta sexta-feira, 16. Como se vê, a empresa não tem muito a perder e o processo pode ser uma estratégia para se livrar pelo menos da dívida com a Infosys. 

Pelo seu lado, a SAP e a Infosys têm sim a perder em termos de imagem, com notícias sobre projetos naufragados na principal publicação de negócios do país (e, modéstia a parte, aqui no nosso Baguete), ao mesmo tempo em que as esperanças de cobrar a dívida são remotas.