Nóbrega: reforma tributária é sem chance e ICMS não tem salvação. Foto: Júlio Soares.

Para o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, o Brasil já deu certo, agora falta só ficar rico, e para isso terá de melhorar o ensino fundamental e fazer reformas, mas uma das mais pedidas, a tributária, não vai ocorrer.

"A chance de uma reforma tributária no Brasil é zero, pois falta uma grande liderança para defender o movimento”, sentenciou em palestra na CIC Caxias do Sul na quarta-feira, 12. “E o Brasil precisa de uma revolução no ensino para ser um país rico. Não é gasto, é gestão”, enfatizou.

Para Nóbrega, o principal entrave é o ICMS, que, sob seu ponto de vista, “não tem salvação”.

Como solução, ele sugere a criação de um imposto único, o Imposto de Valor Agregado nacional (IVA), como ocorre em países desenvolvidos.

Quanto à revolução na educação, para o ecnomista isso passa por esforços do governo no ensino de crianças de 02 a 8 anos, já que, segundo estudos citados pelo palestrante, quem não aprende neste período, dificilmente aprenderá depois.

“Por isso o Bolsa Família é uma iniciativa que pode dar resultado: ao garantir que essas crianças permaneçam na escola, diminuímos as chances de pobreza do futuro”, destacou Nóbrega.

Além do program de assistência familiar, o ex-ministrou comentou outras coisas do governo Lula, em um tom entre o lisonjeiro e o irônico.

“A grande contribuição do presidente Lula foi não ter feito nada na economia”, afirmou, referindo-se ao fato de o governante petista ter mantido a política econômica de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
 

PERDA DA COMPETITIVIDADE
Conforme o palestrante, a economia brasileira e mundial tem perdido dinamismo, principalmente na indústria.

“O mundo vem se desindustrializando desde o século 19. Enquanto o segmento industrial cresce menos que o PIB, os serviços despontam no país”, destacou.

Em sua análise a perda da competitividade está associada ao custo trabalhista, resultado da valorização do câmbio.

Para ele, o consumo está crescendo mais rápido que a oferta, e ao não realizar reformas como a tributária, fiscal, política e trabalhista, o país mantém o crescimento estagnado.

CRISE MUNDIAL E EURO
Para Nóbrega, o Euro deve prevalecer, pois é um projeto profundo e tem a ver com as guerras travadas na Europa, mas não será mantido sem alguma dor.

“As lideranças europeias estão cientes de que o colapso da moeda colocaria em marcha o renascimento das velhas inimizades. A volta às antigas moedas seria uma catástrofe”, avalia. “Mas a Europa paga um alto preço por introduzir uma moeda única antes de ter um governo central forte, união bancária e mecanismos para lidar com as crises dos bancos”, completa.

CRESCIMENTO PARCO
Por conta destas e outras dificuldades, a Europa terá “um longo ciclo de baixo crescimento, com exceções”, avalia o ex-ministro.

Já os Estados Unidos apresentarão uma recuperação lenta, com retomada mais clara em 2013, enquanto a China tende a desacelerar suavemente.

“Sua taxa de crescimento será alta, mas cadente”, afirmou o palestrante.

BRASIL MAIS RESISTENTE
Quanto ao Brasil, o economista acredita que o país está mais resistente às crises e tende a manter crescimento porque possui sistema financeiro sólido e bem regulado, além de estabilidade macroeconômica - câmbio flutuante, metas para a inflação e superávits primários no setor público.

A situação externa do país também é confortável, avalia ele, com reservas internacionais superiores à dívida externa e bom grau de investimento, o que é selo de qualidade para a gestão macroeconômica.

FUTURO
Para Nóbrega, “dá para olhar para o futuro do país com otimismo”.

Em sua avaliação, a partir da estabilidade econômica brasileira, em 2013 o PIB deverá ser de 3,8%, com inflação de 5,5%, taxa de desemprego de 5,5%, massa salarial de 4,7% juros a 9%, taxa de câmbio a 2,10% e balança comercial de US$ 15 bilhões.

Puxando tudo, acredita Nóbrega, estará o agronegócio.

O BRASIL QUE DEU CERTO
Para o ex-ministro, o que “já deu certo” no país é ter “instituições fundamentais consolidadas”, o que definiu como democracia, judiciário independente, Banco Central autônomo, imprensa livre e independente.

Ainda na avaliação do economista, o país tem uma sociedade intolerante à inflação, disciplina de mercado, previsibilidade e capacidade de detectar e corrigir erros.