ECONOMIA

Os riscos do populismo nos EUA

13/03/2017 14:53

Stefano Silveira, economista e professor universitário. Foto: Divulgação.

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Por Stefano Silveira*
Cerca de dois meses após a posse do presidente Donald Trump, quando as primeiras medidas de sua gestão começam a sair do papel, o número de auxílios desemprego caiu consideravelmente nos Estados Unidos (mesmo que isso não possa ser creditado totalmente às ações de seu governo). 

O montante de benefícios concedidos em fevereiro último foi o menor desde novembro de 1973, durante o mandato do republicano Richard Nixon (1969-1974). Todavia, o que aparentemente é uma vitória, pode significar uma perda muito grande daqui algum tempo, pois explicitamente o atual governo se vale de medidas protecionistas como meio de geração de emprego, tais como: desestímulo à instalação de empresas norte-americanas além de suas fronteiras, restrição à entrada de estrangeiros no país, promessa da construção de um muro na divisa com o México e elevação das tarifas de importação. 

Convém mencionar que ao elevar tarifas de importação, em favor da indústria local, em detrimento ao livre mercado, o governo está jogando por terra todos os ganhos proferidos pelo economista inglês David Ricardo, no final do século XVIII, ao divulgar seu ensaio que passou à história como a “Teoria das Vantagens Comparativas”.

Conforme já mencionado, mesmo com ganhos iniciais, o protecionismo impõe aos habitantes da nação que o pratica a aquisição de diversos produtos por preços mais altos se comparados aos importados – sem as citadas tarifas de importação – oriundos de países que possuem vantagens naturais em sua produção, como clima, vegetação, produtividade da terra e abundância de mão de obra. 

Passada a euforia, tal cenário tende a trazer de volta a inflação com força considerável. Na tentativa de freá-la, no curto prazo, a equipe econômica propenderá a aumentar a taxa de juros, trazendo à tona todos os efeitos colaterais associados a essa ação, como aumento da dívida pública, diminuição do consumo, encarecimento da produção, endividamento da população e elevação do desemprego. 

Buscando reverter a situação adversa, o governo se inclinará a elevar os gastos públicos, por acreditar que essa medida servirá como indução aos demais agentes econômicos, sobretudo os empresários. Todavia, para que a citada medida obtenha êxito, não poderá faltar a chamada confiança nas instituições, onde o investidor acredita na política proposta, principalmente no tocante às regras que não deverão mudar no meio do jogo.

As políticas de um governo, antes de serem colocadas em prática, devem ser avaliadas com muita cautela. Se somente tiverem sucesso em sua fase inicial, logo remetida à desilusão, deveriam ser repensadas, pois correm o risco de se revelarem populistas. 

No Brasil, existem vários exemplos disso: os aumentos salariais acima da produtividade e o descontrole orçamentário do governo João Goulart (1961-1964); o Plano Cruzado, de 1986, durante a gestão de José Sarney (1985-1990); e as gestões Lula/Dilma (2003-2016), que perduram durante 13 anos e conduziram o Brasil à maior crise econômica de sua história, com inflação alta, três déficits primários consecutivos, perda do grau de investimento nas três principais agências de classificação de risco, dois PIB´s negativos na sequência obtidos nos dois últimos anos (de -3,80% e -3,60%, respectivamente) e desemprego recorde de 12,6% da População Economicamente Ativa (PEA), somando quase 13 milhões de trabalhadores brasileiros.

Abordando justamente o último exemplo citado, quando da posse de Lula, em 2003, o cenário econômico encontrado era de dificuldades, causadas justamente pela elevação da taxa cambial e da inflação oriundas das incertezas por sua vitória nas eleições presidenciais. 

Com a manutenção da política econômica da gestão anterior – do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), aos menos nos primeiros anos de seu mandato – ancorada no tripé do neoliberalismo (câmbio flutuante, metas inflacionárias e superávit primário) e pelo céu de brigadeiro em que se encontrava a economia global, representado, principalmente, pela ascensão da China no cenário mundial, a gestão pareceu inicialmente exitosa. 

Devido ao exército industrial de reserva que possui a nação asiática fez cair o custo da produção mundial, principalmente pela queda do preço da mão de obra. Isso forçou a redução dos juros globais. Além disso, pelo fortalecimento do trabalho urbano, a China passou a demandar diversas commodities ao redor do globo, seja para fins alimentares ou componentes de produção. 

Nesse cenário, o Brasil, demandante de recursos financeiros, foi duplamente beneficiado, pois passou a pagar menos juros pelos recursos tomados e a arrecadar mais pelo recrudescimento dos preços dos produtos primários que exporta. 

Ou seja, o cenário externo favorável permitiu ao governo Lula pagar a divida externa junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Clube de Paris, além de promover superávit primário, expandir o programa Bolsa Família e tornar a classe média hegemônica na maior nação da América Latina. Nesse quadro, o sucesso e a popularidade da gestão pareciam garantidas, ao menos até o advento da crise financeira global.

Em 2008, auge da crise econômica mundial, marcada pela quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, em 15 de setembro, o governo brasileiro buscou uma reação àquela situação. Se não foi uma solução definitiva, ao menos suavizou o problema. Buscando amenizar o impacto da falta de liquidez global, e sabedor da alta propensão ao consumo que assolava milhares de lares no País, o governo enfatizou o crescimento através do consumo. 

Para isso, baixou juros, diminuí a carga tributária e ampliou o prazo de parcelamento das compras. Porém essa solução, mesmo que exitosa, foi pontual, pois as pessoas estavam adquirindo bens de consumo duráveis, que não são trocados no curto prazo. Além disso, estavam se endividando. Com o modelo dando sinais de esgotamento, seria necessário mudar a ênfase econômica. 

Em 2011, já no mandato de Dilma Rousseff (2011-2016), a citada mudança de ênfase foi tentada, com o investimento sendo escolhido como protagonista. Todavia, dado a falta de clareza de como isso ocorreria, não houve por parte do empresariado o nível de investimento esperado. Faltou a já citada confiança nas instituições.

A partir daí, pela ausência de melhores ideias, o populismo tomou conta da gestão, seja pelo lançamento do Plano Brasil Maior, em 2012, que se baseava basicamente em protecionismo e desonerações, retornando a ênfase ao consumo, seja pelo abuso da contabilidade criativa e das chamadas “pedaladas fiscais”, do aumento considerável dos benefícios voltados aos programas sociais sem contrapartida de receita, da queda por decreto das tarifas públicas como a da energia elétrica e do represamento dos preços administrados como combustíveis e transporte urbano. O resultado disso tudo é a crise sem precedentes que o País atravessa.

Hoje o Brasil e outras nações que adotaram políticas populistas, como a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro e a Argentina de Néstor e Cristina Kirchner, sofrem seus efeitos noviços. Os Estados Unidos parece embarcar no mesmo trem, pois o populismo não possui cores, podendo ser adotado em países alinhados à esquerda, à direita ou ao centro. 

Seus resultados, após um aparente sucesso inicial, são conhecidos: queda do consumo e da produção industrial, desemprego elevado, estagflação, crise e recessão. Em nome da melhoria da economia global, as políticas protecionistas e populistas devem ser abolidas em favor do desenvolvimento econômico e do comércio internacional.

*Stefano Silveira é economista e professor universitário.

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