Pode passar os R$ 6 bilhões no débito, por favor.

A Stone, quarta maior empresa de maquininhas de cartão do país, pagou R$ 6,04 bilhões pela Linx, maior empresa de software de gestão para o varejo no Brasil.

O valor será pago 90% em dinheiro e 10% em ações e é 30% maior do que a soma das ações da Linx na bolsa nesta segunda-feira, 10.

É de longe (muito longe) o maior negócio já fechado envolvendo uma empresa brasileira de software, quase nove vezes mais do que os R$ 700 milhões que a Totvs pagou pela Datasul em 2008, em outra compra que marcou época.

A compra foi vista com bons olhos no mercado, com o site especializado Brazil Journal resumindo o negócio da seguinte forma: “uma transação de méritos tão óbvios que há de se perguntar por que não foi feita antes”.

A Linx anunciou pela manhã que estava em “tratativas finais” com a Stone, levando as ações a subirem 31,5%. Em Nova York, a Stone subiu 11%.

A sinergia entre as empresas é óbvia. A Stone é um player em alta no mercado de pagamentos, com uma operação incipiente de software de gestão. 

A Stone já desenvolveu um software de gestão para bares, restaurantes e para comerciantes de pequeno e médio porte, hoje com 100 mil clientes.

A empresa também adquiriu em maio a startup Vitta, plataforma de saúde que faz agendamento de consultas e atendimentos a distância.

Na ocasião, a empresa também adquiriu 50% da participação da MLabs, empresa de marketing e redes sociais, e investiu na Delivery Much e na MVarandas.

A Stone tem hoje 7,6% do mercado de pagamentos no Brasil, atrás de Cielo (39,9%), Rede (28,8%) e Getnet (12,1%).

Mas a previsão dos analistas da Goldman Sachs é que as três líderes percam participação, com a Cielo perdendo 3,1 pontos, a Rede 1,8 e a Getnet, 0,7.

Enquanto isso, a Stone deve ganhar mercado, subindo 1,8 pontos, para 9,4%.

Nesse mercado, no qual entrou em 2018, a Linx está no grupo dos "outros", junto com o Mercado Pago, com a previsão de chegar a 7,8%.

A Abecs estima que o mercado de pagamentos no Brasil deve crescer entre 19% e 24% este ano, enquanto a penetração do cartões deve passar de 36% dos consumo privado em 2019 para 40% em 2020, o maior aumento da história

A Linx é líder em software, com 42,2% de market share, com uma base de 70 mil clientes e 100 mil pontos de venda, todos eles agora potenciais candidatos a receber uma oferta conjunta para usar máquinas da Stone.

A companhia atuava nos últimos tempos com uma parceria com a Rede e já tinha tentado uma joint venture com a Cielo em 2014. 

“Juntas, elas têm potencial de arrebentar com o mercado,” diz Edson Santos, um especialista em meios de pagamentos com mais de 30 anos de mercado ouvido pelo Brazil Journal.

Segundo uma pessoa a par das negociações, ouvida pelo Brazil Journal, Stone chegou a considerar o mesmo movimento com a Totvs, mas preferiu focar na Linx porque sua base de clientes é mais parecida com a da Stone.

A Linx entrou em meios de pagamento em final de 2018, quando lançou a Linx Pay, apresentada pela empresa para investidores como uma galinha dos ovos de ouro.

O cálculo da empresa era que se ela conseguisse converter metade dos R$ 250 bilhões que passam pelos seus sistemas de gestão em pagamentos processados pela Linx Pay, seu faturamento poderia triplicar nos próximos anos. 

No início deste ano, avançou na estratégia ao comprar a PinPag, pagando R$ 135 milhões por uma subadquirente que processa R$ 3 bilhões por ano.

Com 17 mil clientes, a solução da PinPag consiste basicamente em oferecer vendas parceladas para o cliente do varejo, pagando o lojista no dia seguinte à compra.

Em nota, Linx afirmou que o movimento fortalece a estratégia de cross selling de produtos e serviços da companhia, além de fortalecer e expandir a atuação de sua fintech Linx Pay Hub.

Mais recentemente, a Linx começou a enfrentar problemas pela desaceleração do varejo em função do coronavírus.

A empresa fechou o primeiro trimestre do ano com um prejuízo líquido de R$ 9,1 milhões, frente a R$ 9,4 milhões de lucro no último trimestre de 2019 e R$ 17,1 milhões no mesmo período do ano passado.

Mas a receita operacional líquida da Linx foi de R$ 208,5 milhões, o que representou um aumento de 17,9% quando comparado ao primeiro trimestre de 2019. 

A receita recorrente da empresa chega a 85% da receita bruta, um indicador que costuma agradar aos analistas porque denota previsibilidade.

O que vai acontecer de agora para adiante, no entanto, é imprevisível.