Mattar desistiu de tentar fazer o governo brasileiro privatizar empresas. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Os secretários especiais de Desestatização e Privatização, José Salim Mattar, e o de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, pediram demissão nesta terça-feira, 11.

A informação foi confirmada pelo próprio ministro da Economia, Paulo Guedes.

De acordo com Guedes, Mattar saiu porque está insatisfeito com o ritmo das privatizações. 

A gota d’água pode ter sido um fato relevante da Telebras, uma das empresas do governo à venda, que condiciona a realização do negócio à participação de um banco público.

"O que ele me disse é que é muito difícil privatizar, que o establishment não deixa a privatização, que é tudo muito difícil, tudo muito emperrado", declarou Guedes.

Já Ubel teria pedido exoneração por discordar da estratégia do governo federal de deixar a reforma administrativa para o ano que vem.

Com a saída de Mattar, a agenda de privatizações perde força no governo, dentro de um contexto mais amplo de debandada dos representantes da ideologia liberal no governo Bolsonaro.

Há um mês, o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, deixou o cargo. Ele assumiu como economista chefe do banco BTG. 

O diretor de programas da Secretaria Especial da Fazenda, Caio Megale, também saiu pediu para sair há duas semanas.

Na época, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, avisou o mercado que vai deixar o posto neste mês de agosto.

Mattar, empresário dono da Localiza, era a voz mais alta em prol das privatizações, uma agenda que não avançou muito.

A saída de Mattar pode tirar o pouco de gás que a agenda privatista já tinha, e, quem sabe salvar o Ceitec, estatal de chips federal sediada em Porto Alegre.

Recentemente, Conselho do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) do governo federal recomendou que a fabricante estatal de chips Ceitec seja dissolvida, uma decisão que está agora com o presidente Jair Bolsonaro.

O Ceitec estava na lista de Mattar desde o começo do governo. Quando a decisão do PPI saiu, o empresário comemorou no Twitter.

Mesmo assim, os funcionários da estatal se organizaram, e estão vindo a público com argumentos pela manutenção da empresa.

O principal deles é que fechar o Ceitec pode custar R$ 300 milhões, um valor que torna mais viável para o governo manter a empresa aberta até ela entrar no azul do que fechar as portas.

Pelas contas dos funcionários, a empresa poderia entrar no azul em 2024 com a adoção de medidas que permitiriam cortar os custos operacionais entre 10% a 15% e a folha em 14%.

Os funcionários vem angariando apoio político também, tendo realizado um evento digital com a participação de um representante do Ministério de Ciência e Tecnologia (o MCTI se engajou pela permanência do Ceitec).

Os funcionários tiveram uma audiência com Mattar há 10 dias, com a participação de senadores gaúchos.

Em um artigo publicado no Brazil Journal nesta quarta-feira, 12, Mattar citou a Ceitec para dizer que ela "nem deveria ter existido", o que parece implicar que a reunião não mudou sua opinião. Mas a opinião de Mattar não conta mais, se é que algum dia contou muito.

Agora, sem Mattar, o Ceitec passa a ter uma chance real de sobrevivência.