Tonatiuh Barradas.

A SAP quer usar as necessidades da chamada geração Y, jovens de 20 e tantos anos, como uma estratégia para abrir portas no segmento bancário, dono de grandes orçamentos de tecnologia e uma das indústrias na qual a gigante alemã tem menor penetração.

Em 2013, o negócio de bancos já valia € 1 bilhão global para a empresa, que tinha a meta de duplicar o valor até 2015. 

Ainda é pouco dentro da própria empresa [a SAP faturou  € 16,8 bilhões no ano passado] e frente ao potencial do mercado [só o setor financeiro brasileiro investiu R$ 20 bilhões em TI em 2012].

O argumento da SAP é que se os bancos não mudarem sua maneira de fazer negócios, apostando em serviços de mobilidade e redes sociais eles perderão clientes entre os chamados millenials para concorrentes ou novos players no segmento financeiro que sim o façam.

Jovens nascidos a partir de 1989 já são 32% da população brasileira hoje, e, devido à queda na taxa de natalidade no país deverão representar mais da metade da população em alguns anos, o que faz a sua retenção um assunto decisivo para o futuro das organizações.

A outra ameaça, um pouco menos evidente, é a entrada de novos competidores. Hoje, os bancos já enfrentam concorrência das operações financeiras dos players de varejo. 

No futuro, esse grupo poderia se reforçar pelas gigantes do mercado de tecnologia estabelecidos ou por novos mecanismos como a indústria emergente dos empréstimos P2P, que nos Estados Unidos movimentaram US$ 2,4 bilhões no ano passado, três vezes mais que em 2012.

Uma pesquisa da Accenture com jovens americanos mostrou que 40% dos jovens estaria disposto a trocar seu banco por serviços similares oferecidos pelo Google, contra 23% das pessoas na faixa dos 35 aos 54 anos e 5% dos de acima de 55.

Outro levantamento, este da Scratch Research com jovens americanos apontou que 71% disseram preferir uma ida ao dentista do que ir a uma agência bancária. O dado é daqueles que é melhor apreciar com moderação, mas dá uma ideia do clima.

O fato, no entanto, é que os bancos, principalmente os brasileiros, tem grandes investimentos em sistemas legados [mainframe e Cobol são realidades da indústria e muitos dizem que seguirão sendo por um bom tempo]. A proposta da SAP é uma abordagem passo a passo.

“Podemos implementar módulos conectados aos legados e promover uma migração progressiva”, explica Tonatiuh Barradas, vice presidente de indústrias estratégicas da SAP para América Latina. “Assuntos como ferramentas configuráveis ainda são novos no Brasil. Existe uma grande cultura de desenvolvimento interno”, reconhece o executivo venezuelano.

Um argumento poderoso da multinacional é o banco de dados em memória Hana, que permite processamento de grandes volumes de dados, o que viabiliza a expansão de funcionalidades nos celulares e o uso de dados não estruturados por parte das organizações do segmento bancário.

O estilo “devagar e sempre” que a SAP quer emplacar no segmento bancário, parece estar dando resultado. Segundo dados da multinacional, 92% do Top 25 dos bancos latino americanos já usa tecnologias da empresa. O Big Data da SAP, baseada em Hana, está em 65%.

Os projetos citados pela SAP na estatística da SAP podem ser de módulos nos moldes propostos por Barradas ou mesmo experimentais, mas o fato é que nos últimos tempos a SAP, inclusive no Brasil, tem fechado contratos de grande porte, incluindo migrações do chamado core bancário.

Um exemplo é o contrato R$ 518 milhões em três anos fechado recentemente pela SAP com a Caixa Econômica Federal para uma migração de mais 80 sistemas. O negócio transformou a área financeira na líder em geração de receita para a empresa no país pela primeira vez na história.

Além de estarem se atualizando em termos tecnológicos, os bancos ainda contam com a confiança da população, enquanto os possíveis novos competidores se saem bastante mal nesse quesito.

Uma pesquisa da Accenture com a população americana com uma mostra representativa de toda a população mostrou que os bancos lideram o ranking das instituições às quais as pessoas se sentem seguras de abrir dados, com 41%. 

Possíveis novos players de serviços financeiros se saem bem pior. As operadoras de telecomunicações tem 27%, o Google 23% e o Facebook apenas 14%.

* Maurício Renner viajou a Buenos Aires para o SAP Banking Forum a convite da SAP.