O americano Ted Rogers, da Arpex Capital, diz que o Brasil vive o pós-hype das startups. Foto: Camila Cunha | flickr.com/photos/campuspartybrasil

Empreendedores que estão na busca por um investidor para apostar em uma nova ideia devem ter em mente: as competições para startups nem sempre são a melhor forma de aparecer.

A principal estratégia de correr atrás de um aporte ainda acontece através da indicação. Fernando Campos, investidor-anjo fundador da Lab22, reforça que as competições tem fatores que não beneficiam na hora da escolha por parte do investidor.

“As startups com muita visibilidade, que vencem competições, nem sempre nos interessam, pois acabam sendo supervalorizadas. Já recebi um ótimo projeto pelo LinkedIn, por exemplo”, conta Campos, que também é diretor da Gávea Angels e possui oito investimentos em empresas web com aportes de até R$ 100 mil.

Para se ter uma ideia, só nos últimos seis meses, o Baguete noticiou cerca de 15 eventos de startups, promovidos por empresas como Locaweb, IBM, Intel, Tecnopuc, Sebrae, Endeavor e KingHost.

Maria Rita Spina Bueno, diretora de operações da Anjos do Brasil, organização que conta com um grupo de cem investidores, diz que o primeiro passo é entender seu tipo de negócio para buscar um investidor interessado naquele segmento.

Anderson Thees é sócio-fundador da Redpoint e.ventures, fundo voltado para a aposta em empresas de tecnologia com pretensões mundiais ligada ao Vale do Silício. A empresa recebeu o apoio de US$ 15 milhões da Cisco em julho de 2012 e anunciou, à época, a pretensão de investir R$ 130 milhões.

O executivo, que participou junto dos colegas de uma mesa redonda sobre o assunto na Campus Party, acrescenta que a busca de sua equipe está baseada nos seus contatos mais próximos.

“É importante ter uma rede de relacionamentos. Se alguém indica, é claro que vamos colocar aquele projeto em uma pilha diferente e dar atenção especial”, explica.

No entanto, Thees, que foi CEO da Apontador e negociou a Buscapé, critica a postura de muitos iniciantes. “O que mais está faltando hoje são empreendedores preparados na hora de apresentar e convencer o investidor que seu negócio é bom”, afirma.

CASAMENTO
Mediada por Pedro Sorrentino, Business Development da SendGrid, os especialistas também compararam a relação do investidor com o empreendedor com um casamento.

O americano Ted Rogers, General Partner na Arpex Capital, diz que é necessário ter cuidados e valores tão parecidos quanto os de um matrimônio: cumplicidade, fidelidade e respeito na saúde e na doença até que a morte os separe. “Você precisa sentir o investidor e entender o mercado que está atacando. É essencial ter visão e preparação”, indica.

Maria Rita complementa que os novos empreendedores brasileiros ainda carecem de mentorias antes de tomar a decisão por um casamento definitivo. “As aceleradoras fazem um papel importante de auxílio, mas também acredito que a atenção aos mentores seja o ponto de partida para enxergar oportunidades e fraquezas”, acrescenta.

Para ela, a transparência é fator base para não desgastar a relação. “O empreendedor tem que entender que é um negócio de capital de risco. Se quer crescer, não pode se valer do jeitinho brasileiro para resolver os seus problemas”, aconselha.

Já na fase de “namoro” Anderson Thees aponta que ele e seus colegas buscam erros na índole do empreendedor. “O histórico de equívocos anteriores pode influenciar no valor do aporte, mas não no acerto ou não da parceria”, pondera.

CENÁRIO POSITIVO?
A Anjos do Brasil afirma que em 2012 já contabilizava 6,3 mil investidores que têm cerca de R$ 450 milhões aplicados em empresas nascentes.

Fernando Campos, que espera ter retorno em até cinco anos de parceria, diz que o país vive o primeiro ajuste no mercado com a grande quantidade de novas empresas – dentre essas, muito mais projetos ruins do que bons. Por isso, no momento, os anjos seguram seus investimentos.

O americano Ted Rogers convive com um mercado de forte fomento às startups desde a década de 1990. Na administração Obama, em 2011, os Estados Unidos criaram um programa de investimentos de US$ 2 bilhões em startups que desenvolverem novas tecnologias para o setor de energia limpa. Com esse respaldo, a opinião do investidor é que o cenário brasileiro está mudando para melhor.

“Acredito que o Brasil está entrando em um pós-hype das startups. Os investidores americanos estão indo embora, mas os que ficarem vão ter sucesso. Estamos caindo na realidade aqui e isso é muito bom”, enfatiza.