Sede do Serpro, o novo parceiro da AWS.

O Serpro já está em conversas com 100 potenciais clientes na administração pública, potenciais interessados em migrar parte de seus sistemas para a nuvem da AWS.

A cifra dá uma dimensão do potencial que a estatal federal de processamento de dados enxerga na sua atuação como intermediária de venda de nuvem da multinacional americana, apresentada em coletiva de imprensa nesta terça-feira, 02.

“São clientes que não estão hoje na base do Serpro. As conversas estão em diferentes níveis, indo desde reuniões iniciais até testes de conceito”, revelou Antonino dos Santos Guerra, diretor de Operações do Serpro.

Guerra, um general de divisão com longa experiência em áreas relacionadas a TI no Exército nomeado para o cargo em fevereiro, revelou ainda que o Serpro tem mapeados um total de 100 data centers ligados a órgãos públicos só em Brasília.

“É um modelo que servia no passado mas não serve para o futuro”, resumiu Guerra, destacando que o Ministério da Economia tem entre suas diretrizes racionalizar o gasto com TI da administração pública visando ganhos de escala.

O modelo de atuação do Serpro com o AWS acontece dentro do regramento da Lei de Estatais e prevê a composição do preço final a partir de duas contas: a unidade de serviço de nuvem, pertencente à AWS, e a unidade de serviço técnico, que é a parte do Serpro na equação. 

O Serpro não revelou qual é a proporção de cada parte no preço final, mas parece claro que a AWS é a parte envolvida com mais margem para cortar seu preço na composição de uma oferta atrativa.

De acordo com Guerra, a AWS foi “generosa” e atendeu os requisitos em quesitos de “preço, segurança e arquitetura financeira”. Até agora, 240 funcionários do Serpro já passaram por treinamentos na tecnologia da AWS. 

Sobre os dois últimos pontos, o general revelou que o serviço a partir dos data centers da empresa no Brasil, um tipo de exigência que é o esperado, e que os pagamentos serão feitos por meio de uma conta num banco em Nova Iorque, um acerto que deve proteger os clientes da variação do dólar num período de um ano.

O Serpro insistiu que não foi gasto nada até o momento e que a AWS deve se remunerar quando os contratos comecem a entrar. 

Uma publicação no Diário Oficial da União em março, no entanto, falava de um contrato de R$ 71,2 milhões por cinco anos, o que talvez seja em uso da tecnologia dentro do próprio Serpro, ou uma previsão de gastos.

De qualquer forma, é um valor pequeno frente ao potencial do mercado público como um todo, especialmente com o Serpro abrindo as portas. 

É importante lembrar que o Serpro está negociando com outros players de nuvem. A empresa não abre nomes, mas eles certamente incluem Google e Microsoft, que juntos com a AWS foram a liderança no mercado, e talvez algum player mais de nicho como Oracle e IBM.

As negociações começaram com um chamamento público aberto no final do ano passado para buscar fornecedores interessados em um projeto de multinuvem, o chamado Serpro Cloud.

De qualquer forma, o fato da AWS ter sido a primeira mostra que a empresa está sendo mais sucedida (quem sabe arriscando mais) do que as concorrentes em se aproveitar da abertura do governo para aquisição de computação em nuvem, um fato novo no cenário de tecnologia no país.

No ano passado, a AWS, por meio de uma parceria com a Claro/Embratel, foi a vencedora da primeira grande licitação desse tipo, organizada pelo Ministério do Planejamento. 

No formato registro de preços, a licitação resultou em 23 contratações, 10 delas de órgãos que constavam da ata original e mais 13 que aderiram à licitação depois. Como resultado, o pregão de R$ 29,9 milhões já alcançou R$ 55 milhões em contratações de serviço.

Estão previstas migrações para a AWS em órgãos tão diferentes como  Ministério da Fazenda, Cade, Polícia Rodoviária Federal,  Agência Nacional de Águas, Conselho Nacional de Justiça, INSS e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O prazo para aderir a essa ata, no entanto, está acabando, e parece que o Serpro se prepara para ocupar o espaço de fornecedor de nuvem para o governo. 

A atuação como "cloud broker" é só uma pequena parte de uma virada estratégica de grande porte no Serpro.

Também no final do ano passado, a empresa começou a cadastrar fornecedores para desenvolvimento de software em uma ampla gama de tecnologias, preparando o que parece ser um movimento de terceirização.

A estatal lista 34 tópicos nos quais as empresas podem se cadastrar, cada uma com diferentes tecnologias.

A lista vai desde 13 diferentes linguagens de programação até componentes de assinatura digital, passando por plataformas de gerenciamento de projetos, frontends, CMS, middleware, testes automatizados e mensageria.

A estimativa é de uma economia de até 50% do "esforço" das equipes internas do Serpro, percentual que costuma ser utilizado nos “processos de codificação”.