Outro dia, conversava com um executivo gaúcho sobre o quão “fechado” era o nosso mercado de TI no Rio Grande do Sul e regionalizado, obtive a seguinte resposta: “gaúcho se entende bem com gaúcho”, afirmou ele categoricamente. Disse, também, que nosso povo é bairrista, do tipo que canta o hino rio-grandense em estádio de futebol e até em show de rock n´roll. Bom, isso é verdade!

Comecei a ficar meio incomodado quando este executivo afirmou que nós gaúchos preferimos fazer negócios com empresas de TI locais, mesmo as de pior qualidade, porque assim se tem a possibilidade de “chutar a porta” do dono, se houver algum problema. Pensei comigo que o certo seria fazer negócios com empresas que ofereçam qualidade, locais ou não, para que não houvesse necessidade de “chutar portas”.

Mesmo não concordando, respeitei a opinião do executivo, como é do meu feitio. A esta altura, interessadíssimo na “charla”, afinal vivo aqui e atualmente trabalho em uma empresa chilena de TI que, entre muitas ofertas, comercializa um software de gestão empresarial alemão, não me aguentei e fiz uma pergunta em tom sério: “na sua opinião, qual a razão do nosso povo ser assim?”.

O executivo respondeu enigmático: “Marcelo, é a cultura rio-grandense que é muito forte, o pessoal de fora não conhece”. “É verdade”, concordei. “A história e a cultura do Rio Grande do Sul são verdadeiramente ricas”. Como estava discordando da questão “povo fechado”, educadamente, levei a conversa para outro lado. O da história e da cultura do Rio Grande do Sul...

Contei a ele que estando com 45 anos, vesti “bombacha” umas cinco ou seis vezes no máximo, falei que aprendi desde pequeno, lá em Cruz Alta, minha terra natal e de Érico Veríssimo, o gosto pela nossa história.

Cruz Alta também é a terra do caudilho pica-pau, Firmino de Paula, um herói castilhista que, nos dias de hoje, seria considerado um homem muito mau, pois como líder regional de uma guerra política iniciada em 1893, degolava todos seus prisioneiros.

Também contei de minhas visitas aos salões do castelo do líder político maragato, Assis Brasil, em Pedras Altas, e que tinha na família quem tivesse participado da revolução de 1923, entre maragatos e chimangos...

Senti que o executivo não estava muito confortável. Pareceu não estar entendendo nada deste negócio de revolução, maragato, pica-pau, chimango... Aí fiz algumas perguntas, descrente que ele soubesse as respostas: “Qual o significado da palavra “gaúcho”? Qual a origem do chimarrão? Ou ainda, o que significa o termo gauchesco mais usado, o “tchê?”.

Ele não sabia e eu, tampouco, dei as respostas. Não vou responder a estas questões neste artigo. Assim como o executivo, muitos dos defensores do “mercado fechado” não sabem responder estas questões básicas da nossa cultura. E o tempo, até encontrarmos as respostas, será o tempo de reflexão para quebra total deste paradigma. Ter conhecimento e amor a nossa história e cultura tem a ver com as leis de mercado e com a relação custo x benefício de projetos de TI?

O mercado gaúcho quer o que é bom e seguro. Não quer ser “quebrador de porta”. Quer o preço, o prazo e a qualidade combinada. Querem os resultados e não o dinheiro de volta.

Certamente, algum leitor pode estar se perguntando: e o executivo gaúcho? Alguns dias depois, ele me confessou que, por alguns instantes durante a nossa conversa, sentiu-se um forasteiro (um paulista, um nordestino ou um alemão) e não tinha tanto conhecimento da cultura local como pensava.

Disse que estava aberto a desenvolver projetos rentáveis com executivos “de fora”. Concordamos que fica bem difícil se os “forasteiros” entrarem aqui “se achando”.  Nestes “pagos”, o respeito à nossa cultura é fundamental para o desenvolvimento de parcerias duradouras. Mas sabemos que num mundo tão globalizado como o que vivemos hoje, não dá para levantar muros dentro de uma mesma nação. O que é bom precisa ser conhecido. É assim que se dá o desenvolvimento, seja de pessoas, de empresas ou de um país.

Marcelo Duarte é diretor regional de Porto Alegre da Sonda Procwork, empresa do Grupo Sonda IT, maior organização latino-americana de Tecnologia da Informação.