Não está permitido! Foto: Flickr.com/photos/jdisdjimdsm

Home Office? Você diz trabalhar de casa? Mas que abuso. E para que eu tenho uma infraestrutura tão cara? Para ficar de enfeite? Me diz se tem sentido pagar para o cara acordar às 8h da manhã, ligar o computador e trabalhar de cueca da casa dele? É o que me faltava.
 
O sujeito é pago para estar aqui, na mesa dele, das 8h às 17h – e ai dele se fizer hora extra, pois eu não pago.
 
Não ligo se é horário de pico, se os trens estão abarrotados ou se o trânsito está caótico. O problema é do Prefeito, do Governador. (Ô Dilma!!) O ponto eletrônico está lá para fiscalizar e criar senso de responsabilidade com horário. O sujeito tem que chegar no horário, e se não chegar à tempo, tem que compensar suas horas.
 
Não consigo entender esse mundo dos negócios que anda tão descuidado. O funcionário só trabalha se o chefe está no cangote, gritando e vendo o que está sendo produzido. Em casa quem vai fiscalizar o cabra? A mulher dele?
 
As pessoas não pensam que na casa do cara tem mais coisas para tirar o foco dele do que dentro do escritório, onde todas as pessoas estão lá para trabalhar, para fazer as coisas acontecerem. Trânsito e superlotação do transporte público faz o cara chegar esperto na firma. Esse papo de que chega mais cansado é balela, pois tem trem que você nem precisa fazer força para segurar o corpo no chão.
 
Esses caras querem ficar ricos com esse discursinho barato de que o peão vai ficar mais tranquilo e até topa ganhar um pouco menos se puder ficar em casa e não enfrentar a rotina pesada da locomoção. Aqui é trabalho, não é o almoço de domingo na casa da mãe.
 
Toda vez que eu leio um texto sobre essa onda sem lei, “anarquista” do Home Office, eu rio – háháhá. Eu não ligo se tem novas tecnologias que, dizem os vendedores, permitem mobilidade para efetuar as tarefas de sempre do trabalho.
 
Ora, a tarefa de sempre do trabalho é feita na mesa do trabalho. Se quer trabalhar de casa, vira doméstica. É o que me faltava, ter que bancar marmanjo preguiçoso.
 
Minha vida não foi fácil, eu não virei chefe, dono da minha firma, porque quis ficar em casa trabalhando. Há 30 anos isso ai seria heresia só de dar ideia. É heresia com o empresariado que suou para construir uma empresa bacana, com uns computadores bons e uma copa com café de graça para seus funcionários.
 
Esse povo da comunicação e do marketing é cheio de dar ideia de vagabundo, de tentar deixar o lado deles mais fácil, enquanto o comercial, que sustenta esses povo, fica na rua, no telefone, rodando pelas baias, ou onde quer que seja, tentando colocar dinheiro para fechar o mês.
 
Ainda bem que minha sobrinha, tão inteligente e que tem inglês fluente (meu irmão mandou ela para a Disney três vezes), está se formando em marketing. Ela é meu sangue e vai dar o sangue pela firma que também é dela, pois somos família.
 
Quando não é o tal Home Office é o papo do horário flexível. Háháhá. O pessoal do recursos humanos também só dá risada. Esse povo acha que a legislação permite essa baboseira de trabalhar dois dias de casa e três na empresa. Flexibilidade é saber dormir cedo e moldar os costumes para estar dentro da companhia pronto para segurar o rojão.
 
Teve um moleque, dessa geração “me me me” que eu li numa revista ai (e aprendi tudo), que disse que determinados departamentos podem contar com funcionários fora do ambiente da empresa. Segundo essa criança, que não entende nada de pipeline, que não sabe “forquestar” as vendas, se essa equipe se encontrar uma vez por semana para alinhar as atividades e o restante tocar de casa, certamente a coisa flui.
 
Esse ai comprou a demissão dele, nem tem o que dizer, né? Tem 21 anos e quer me ensinar a tocar minha empresa. Faz me rir, garoto, faz me rir!
 
Dizem que minha postura não é inovadora. Como não? Troquei aqueles computadores grandes por uns notebooks bonitos. Mas o que é inovação, meu deus?
 
Jura que eu tenho que aguentar esse povo falando baboseira o dia todo? Funcionário bom cumpre com a CLT. Está tudo lá, preto no branco, como o presidente Getulio criou. Fala pra ele esse negócio de trabalhar em casa! Dava um tiro de novo na cabeça.
 
Já estou fazendo minha parte deixando esse povo trazer o iPhone ou iQualquercoisa para dentro da empresa, usando o wireless que eu pago para eles ficarem no Facebook. Imagina na casa deles o quanto eles iam ficar no Facebook e no Candy Crush? Absurdo, não dá. O gado só engorda com os olhos do patrão.
 
Contratei esses dias dois xerifes para a gestão de marketing e de TI, gente boa, que entende que eu suei para construir uma empresa justa e dentro da linha. Eles já aboliram uma tal de computação em nuvem que um analistinha de tecnologia cogitou.
 
É o que me faltava, além de quererem que meu funcionário fique, dizem, trabalhando em casa, ainda querem colocar meu servidor na tal da Amazon. Esse povo não entende o valor do dinheiro, nunca serão chefes com essa cabeça liberal e sem fundamento nenhum.
 
Tenho dó dessas pessoas que compram essas ditas tendências de mobilidade, de flexibilidade e nuvem. Nuvem, meu filho, está no céu, meu servidor está no CPD. Mobilidade você tem com o trem e flexibilidade é a minha capacidade de te ouvir falar baboseira sem te demitir por justa causa.
 
*Renato Galisteu é especialista em comunicação e mídia social, jornalista de tecnologia e pai do Noah [texto originalmente publicado no Linkedin]