Rafael Specht da Silva, desenvolvedor web no Grupo RBS. Foto: Divulgação.

O Maurício Klaser me colou o link do ótimo texto “A verdade oculta das ‘empresas de garagem’ do Vale do Silício”. Fala sobre como o mito de empresas que surgiram do nada, dentro de uma garagem qualquer, para virarem gigantes do mercado. 

O autor cita algumas delas e conta como a história romantizada prevalece sobre o que aconteceu de verdade: os criadores tinham contatos com investidores e alguns trabalharam em grandes companhias antes de ter a sua.

Eu achei muito interessante e reforça uma teoria minha: muita gente quer ficar bilionário aos 23 anos, como Mark Zuckerberg, mas poucos querem estudar em Harvard antes disso, menos ainda têm um amigo com dinheiro (no caso, muito dinheiro) para investir na sua ideia. 

Porém, mesmo sem ter o conhecimento necessário e o dinheiro para tal, comparam-se ao criador do Facebook.

Faz um tempo que tenho notado um certo culto aos empreendedores, aos que fundaram uma empresa e ficaram ricos ainda jovens. O Klaser, que me colou o link, é o mesmo que citou pela primeira vez, no twitter, a unidade de medida “citações de Jobs por minuto” depois de presenciar apresentações de vários trabalhos na faculdade de publicidade. 

Eu acho isso quase perigoso, e explico: estamos nos espelhando em histórias que já foram romantizadas, sem ter os mesmos recursos dos protagonistas — e talvez sejamos mordidos pelo monstro da expectativa nesse filme chamado “vida”.

Empreendedorismo virou uma caraterística/habilidade/vocação quase obrigatória em algumas áreas. Alguns especialistas separam as pessoas entre empreendedores e o resto. Particularmente eu admiro bastante quem consegue ter a noção ou visão de qualquer coisa que possa virar um negócio. 

Aliás, eu mesmo, tento bastante fazer algo dar certo. O problema é que os que tentam, ou mesmo os que conseguem, descobrem que não é um mar de rosas e que nem sempre o Google bate à porta para comprar a sua maravilhosa ideia. Pode parecer estranho, mas ficar bilionário com sacadas geniais não é assim tão fácil (sou só um qualquer falando, não preste atenção, mas o texto linkado parece corroborar o que digo).

Outra coisa danosa que vejo é o enaltecimento à desistência da educação formal por Gates, Jobs, Zuckerberg (ele, de novo) e grande elenco. O auto-didatismo é louvável e necessário, mas as pessoas que escrevem livros e artigos que são usados para que isso seja possível muitas vezes tem diplomas e pós-graduações. 

Conheço grandes desenvolvedores que têm apenas o segundo grau, mas também seria legal saber que o Facebook empregou alguns professores de Harvard que deram aula ao idealizador da rede social. Pelo visto, o próprio Mark reconhece a importância de mestres e doutores.

Sou desenvolvedor de software e criei o Bus1.me, um site para compartilhamento de geo-localização em tempo real, que é alimentado de forma colaborativa e ajuda a saber onde está o ônibus que você precisa pegar naquele exato instante. 

Dei entrevistas no jornal e na televisão, me chamaram de gênio algumas vezes (pessoas, não os meios de comunicação), me disseram que eu ia revolucionar a maneira como usamos o transporte público e, bem, provavelmente você não conhece o site e todos pegamos ônibus da mesma forma ainda hoje.

Ao escrever esse texto, que gostaria de entregar para mim mesmo (se tivesse um DeLorean), queria dizer:

1. Comparar sua trajetória com a de grandes nomes que mudaram o mercado ou o seu tempo pode acabar te frustrando. Reconheça as diferenças e procure casos mais próximos de você.

2. Aprecie a caminhada. Sempre que citei o bus1.me em entrevistas de emprego, causei uma boa impressão por ter me esforçado para tirar um projeto do papel e também porque aprendi muito no meio do caminho. Logo, não fiquei rico, mas tive boas oportunidades, inclusive de trabalhar numa grande empresa!

Por fim, não estou propondo que queimemos as biografias de ninguém, deixemos de comprá-las, paremos de citar Steve Jobs, ou de empreender. Justamente ao contrário! 

Ainda acho tem muita coisa a ser explorada e provavelmente trabalhar no seu projeto vai ser mais emocionante do que o que você faz no seu trabalho (claro, dependendo do seu projeto e do seu trabalho), mas gostaria que houvesse menos julgamento sobre aqueles que não tem a própria startup ou nem se interessam em tê-la. 

Que as revistas, sites e blogs parassem de chamar de acomodados os que não tem o tal “perfil” e que os mitos de sucesso fácil e espontâneo parassem de ser propagados de forma a dar a entender que se você ainda não ficou rico, isso é totalmente culpa sua.

Quero sim ler sobre como algumas pessoas da minha idade ou bem mais jovens estão criando coisas úteis e resolvendo problemas (ou criando necessidades?) — mas apurar os fatos ao redor do “gênio” e contar de forma mais realista sobre como ele fez para chegar lá pode ajudar a diminuir o peso sobre uma geração que sofre cada vez mais com a pressão de criar a próxima Apple, sendo que talvez não haja essa necessidade.

Sejamos empreendedores, mas sem alimentar o monstro da expectativa!

* Rafael Specht da Silva é Tecnólogo em Sistemas de Telecomunicações pelo IFSul Rio-grandense e trabalha como desenvolvedor web no Grupo RBS.